Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


#59

Sábado, 01.07.17

 Moana (2016)

 

Se fechar os olhos, parece que ainda sinto a tua mão enrugada na minha. São rugas que testemunham, em cada subida e descida de pele, a dureza de décadas de muito trabalho e suor. As marcas de tratar da terra e da casa, dos filhos e do netos, e da agulha que, até não poderes mais, passeava a linha durante horas a fio. Mesmo vendo mal, os teus pontos, traçados de memória, eram perfeitos e fariam inveja a qualquer máquina moderna. As tuas mãos estão frias, como sempre. "São boas para fazer queijo", dirias entre risos. E, num momento, tão efémero quanto a inocência me permite, viajo no tempo para te sentir mais uma vez. Para me sentar ao teu colo, indefesa, eterna criança neste corpo já de gente grande. Como um marinheiro à deriva que, num golpe de magia, consegue regressar a casa. E tu, teimosa, não te queixas do meu peso porque o amor é mais forte do que tudo.

Por instantes, sou outra vez pequena nos teus braços, uma ilusão que a realidade não deixa durar mais do que um segundo. Foste a minha primeira melhor amiga, a minha confidente das árduas batalhas que travei na creche e depois na primária. Foi também contigo que vivi as primeiras "zangas" e troquei argumentos, defendendo acaloradamente verdades que, para mim, eram absolutas. A paciência era a tua maior virtude, assim como a vontade de aprender, e gosto de acreditar que ganhei muito disso contigo. Dizem que somos feitos do passado que vivemos, mas empurram-nos com tanta incerteza para o futuro que, pelo caminho, nos transformamos em pouco mais do que um eco difuso. Resquícios de sonhos e promessas que ficaram por vingar. Resquícios de nós próprios.

Houve um dia em que me sentei ao teu lado e não sabias quem era. Não quiseste dar parte fraca, bem ao teu estilo, mas a mentira era demasiado evidente. Troçava de mim, de nós, mesmo à minha frente. Naquele dia, e pela primeira vez, tive a noção clara de que te ia perder. Era uma questão de tempo. Tudo é, afinal, uma questão de tempo. E esse tempo é sempre muito mais breve do que devia ser. Não merecias menos do que a eternidade, sabes? E agora, por culpa desse tempo que passa de forma tão traiçoeira, tenho já primos que nunca tiveram a sorte de te conhecer. Bisnetos teus, como carinhosamente te lembrarias de cada um deles, ao mesmo tempo que desenhavas o teu percurso - desde a filha mais velha à criança mais pequena. Éramos já tantos que, quase sempre, contavas pelo menos três vezes para teres a certeza. E, quando te querias gabar dos feitos de um século, era sempre de nós que falavas. Éramos o teu maior tesouro.

Enquanto todos esperavam alguma coisa de mim, tu só querias que fosse feliz. Mesmo quando isso me afastou de ti, rumo à Faculdade. Pediste-me para me sentar no teu colo e disseste-me para seguir o coração. Para lutar contra o mundo se fosse preciso. Sabias, melhor do que ninguém, que tinha chegado o momento de me deixar abrir as asas e voar. O destino só dependeria de mim. Tal como soubeste, quando regressei de uma semana fora de casa, na adolescência, que eu estava a crescer, e que, mais cedo do que tarde, os teus braços seriam demasiado curtos para me segurar. Choraste, e eu não percebi. Na inocência de quem é nova demais para entender essas coisas de gente madura, não percebi. E hoje sei que nunca te agradeci o suficiente por tudo o que fazias por mim. Por isso, se ainda não for tarde, obrigada por tudo, avó.

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#58

Quarta-feira, 08.03.17

Capitão Fantástico (2016)

Capitão Fantástico (2010)

 

As mulheres da minha vida tornaram-me a mulher que sou na minha vida. As mulheres da minha vida não têm nada de especial, mas têm tudo de especial. As mulheres da minha vida viveram num mundo de ditadura, mas ensinaram-me a viver num mundo livre. As mulheres da minha vida não tiveram as mesmas oportunidades que eu, então obrigam-me a aproveitar todas as que me são dadas. As mulheres da minha vida são de estatura baixa, mas tão grandes que não cabem neste texto. As mulheres da minha vida estão longe, mas sempre perto em cada acção do meu dia. As mulheres da minha vida não se cruzam comigo nas ruas de Lisboa, mas habitam o meu coração. As mulheres da minha vida não sabem o que é a Internet, nem precisam. As mulheres da minha vida não contactaram com o mundo que escolhi, mas aceitam-no (como me aceitam). As mulheres da minha vida não dizem obrigada, porque desde cedo falaram com acções em vez de palavras. As mulheres da minha vida criticaram-me e elogiaram-me, e eu tentei aproveitar cada letra. As mulheres da minha vida sabem o que é o trabalho duro do campo, para que eu não tenha de o saber. As mulheres da minha vida trocaram os sonhos pela realidade, para que me seja permitido (a mim e aos meus) sonhar. As mulheres da minha vida não exigem muito de mim, por isso faço-o por elas. As mulheres da minha vida lutaram por mim no passado, para que eu possa lutar por elas, hoje e no futuro. As mulheres da minha vida trocam as lágrimas por sorrisos, para que também eu o faça. As mulheres da minha vida lutaram num mundo de homens, e foram tão, ou mais, excepcionais do que qualquer um deles. As mulheres da minha vida foram nossas filhas, mães, tias e, algumas, avós, e somos uns felizardos por isso. Uma das mulheres da minha vida está no Céu, porque a ela apenas pode estar reservado o melhor. As mulheres da minha vida não são apenas estas, mas permitam-me a ousadia. As mulheres da minha vida fazem de mim uma pessoa melhor todos os dias, não apenas hoje. E por isso todos os meus dias são também delas.

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#57

Quarta-feira, 11.05.16

Pausar a música de fundo no topo da barra lateral.

 

Não sei o que esperas quando me esperas e eu não chego. Não sei o que ouves no silêncio da minha ausência. Dias, pensaste. Nunca mais do que meses, reforçarias semanas depois. Breve, mas tanto tempo. Tanto tempo que já não sabes quantos dias se passaram nos meses que se seguiram. Parámos a meio caminho. Encarámo-nos, olhos nos olhos, sem nos vermos.

 

 

Há um país entre nós mesmo quando estamos na mesma cidade. As palavras, sempre elas, troçam de nós ao ritmo do tempo. Tinha tanto para te dizer, sabias? Tanto que todas as palavras, de todas as línguas, não chegariam para me expressar. Tantas histórias para te contar. Tanta dor para partilhar. E aqui ficamos, sem ficar, no compasso de uma melodia que nenhum compositor foi capaz de criar. Encontramo-nos, desencontrados, no vazio do barulho que partilhamos.

 

Talvez amanhã, penso, enquanto o som característico põe fim a mais uma chamada. Ligarei no dia seguinte, se não o adiar para depois. Muitas vezes, vezes demais. Queres-me perto, mas eu estou longe e há distâncias que já não sou capaz de percorrer. Não sei se são as pernas desgastadas pelas quedas. Não sei se são os braços derrotados pelo peso sobre mim. Não sei se é tudo ou coisa nenhuma. Sinto-me presa no meio de uma história que já não sei como começou. Não posso ser o final feliz de uma história por escrever. Não posso ser eu, apenas eu, porque não chega. Nunca chega, sabes? Eu sei.

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#56

Sexta-feira, 31.07.15

Pausar a música de fundo no topo da barra lateral.

 

Fica só mais 10 minutos e conquistaremos o mundo. A porta está aberta e o horizonte, ali, à nossa espera. Dá mais um passo. Aproxima-te. Deixa-me percorrer a tua pele quente com as minhas mãos gélidas. Deixa-me terminar num abraço apertado para começar de novo. E de novo outra vez, até me reconstruir de novo nos teus braços.

 

É uma fábula interminável, mas condenada a terminar. Daquelas histórias feitas de gente, sons e momentos na hora errada. Daquelas histórias para as quais o Yann Tiersen escreve músicas e o Wes Anderson cria países. Daquelas histórias que, tão mais do que histórias, não vivem nos livros mas em nós.

 

Mas sabes, talvez um dia me faltem as palavras e a voz me doa, tanto, a par com o coração, mas tanto, sem ser capaz de te dar mais do que o silêncio de um passado. Talvez um dia a distância entre nós encurte mas nos afaste. Talvez um dia, depois de todos estes dias, não haja mais capítulos para contar na nossa história. E, naquilo que antes era interminável, as reticências dão lugar ao ponto final, a interrogação à certeza e não há mais tempo que te possa pedir. A página encerra e o livro fecha-se sobre a cama.

 

Por isso, hoje, fica só mais 10 minutos.

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#55

Quarta-feira, 22.07.15

Beginners (2010)

 

 

Palavras levadas pelo vento, em sobressalto. O que fica quando tudo (se) parte? Quando nos voltamos a juntar? O que nos une quando tanto nos separa? Talvez o silêncio, quando o vento leva as palavras sobressaltadas e nós em sobressalto.

 

Há momentos em que esqueço o meu nome e só me lembro do teu, inscrito nos vales e montanhas que nos separam. Sabes, quando vou ao teu encontro, posso jurar que vejo o teu sorriso cravado em todas as estrelas. Tanto de ti em mim. Tanto de mim em ti. Como se os nossos corpos conversassem em silêncio, mesmo à distância. Como se as nossas respirações apenas acontecessem no mesmo compasso, acalmadas e aceleradas uma pela outra.

 

Se (me) partir irei encontrar-me? Sou uma sombra que se arrasta pelo horizonte infinito de um até já. A cada passo, o meu corpo desfaz-se em pedaços, suplicando que o voltes a juntar. A cada passo. o meu coração aperta, a minha cabeça apreende-me, perdidos na sua própria confusão (que é a minha). A cada passo que não damos lado a lado, há uma distância que se prolonga entre nós.

 

Ainda sei o caminho de volta para mim, para ti?

Para não restarem dúvidas, posso perder-me no teu abraço esta noite?

 

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#54

Terça-feira, 14.07.15

Pausar a música de fundo no topo da barra lateral.

 

Tiraste-me as palavras da boca a cada beijo. Fintaste o futuro a cada regresso. Desafiaste-me em cada toque demorado sobre a minha pele. Onde estás tu esta noite? Virás ter comigo se eu te chamar?

 

Acontecemos, simplesmente. Sem almejar as estrelas mas tocando-as. Sem esperar nada mais do que um momento mas querendo todo o tempo do mundo. Prolonga os instantes em que me seguras nos teus braços e me pedes para ficar lá para sempre. Encurta os dias que nunca acabam quando estás longe dos meus. Diz-me que o mundo lá fora não existe e eu, juro, acreditarei.

 

Não sei o que é realidade ou ilusão. Tudo é uma miscelânea de sensações, frases e instantes e, no meio da confusão labiríntica que nos cerca, só a ti vejo com clareza. Por isso, sigo os teus passos cravados na areia, as nossas memórias encurraladas na minha mente, os nossos (des)encontros escritos na calçada desta cidade que nos separa. E como é bom encontrar-te, uma e outra vez.

 

Se eu te escrevesse uma carta com as gotas do meu suor, sentirias tudo o que tenho para te dizer?

Se eu te escrevesse uma carta com os batimentos do meu peito, acompanharias as saudades que tenho de ti?

Se eu te escrevesse uma carta em branco, perceberias o que te quero dizer?

Se eu te escrevesse uma carta com o meu cheiro, saberias o caminho de volta para mim?

 

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#53

Quinta-feira, 09.04.15

Medianeras (2011)

 

A cidade desce sobre nós com a força de mil homens. Levanta-se um ruído inesperado num silêncio de quase-rotina. Voltas e voltas sem chegar a lado algum. Passos e passos sem sair do mesmo sítio. Já é noite. A lua fintou o sol e mostra-se, plena, imensa, sobre nós. Como somos pequenos. Como somos frágeis. Como o momento é efémero. Como tudo é, ao mesmo tempo, nada.

 

Sabes, nunca fui como agora. E, da mesma forma que existo pela primeira vez, também o horizonte se ergue prometendo ser derradeiro. Amanhã posso ser tudo. Ou posso ser nada. Não há limites. Apenas a cidade, apenas o presente. E uma infinidade de possibilidades e estradas por cruzar. Sabes, nunca senti como hoje. Parece que flutuo e, num instante, os prédios que se erguiam sobre mim estão agora aos meus pés.

 

Que muros são aqueles? Aproximam-se de chofre, sem avisar. São da cidade? São meus? Confundem-se. Confundem-me. Fecham-me em copas. Tenho tantas histórias para te contar, em silêncio. Tenho tanto para te mostrar, de olhos fechados. Mas a cidade desce sobre nós com a força de mil homens e o dia não pára. És apenas ruído.

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#52

Sexta-feira, 13.02.15

Wish I Was Here (2014)

 

Lá fora está frio e são as tuas mãos quentes que me encaminham para a cama, já rendida, no silêncio. Sou criança, de novo, regressando ao passado, mas sinto como se o fosse pela primeira vez. Tento descobrir o meu sorriso com as mãos, mas estas voltam molhadas em lágrimas – as minhas lágrimas. Não sei por que choro. Sinto a dor mas não a sei explicar. Não a percebo. Ainda não me explicaram o poder das palavras, o quanto estas magoam. Ainda não sei que serão repetidas ao longo dos anos. Que, além destas, serão ditas outras, num sem fim de setas que me trespassam a cada sílaba.

 

Ninguém vê as marcas, sabes? Há golpes mais profundos do que a pele, tão fina, tão frágil. A minha voz esbate-se na tua, sempre mais alta e forte. Quem sou eu depois de mim? Depois de ti? Depois da dor? Olham-me mas não me vêem, tocam-me mas não me sentem. Sou como um fantasma que me assombra a mim própria. Não existo, mas sinto. Tanto. Com tanta força. É insuportável e não me suporto. E eu sigo, mesmo sem seguir.

 

Estou a correr para parte incerta. Sem chão. Sem mão. Não tenho voz. Gastei-a nas horas perdidas sem nada dizer. Éramos apenas vozes soltas na direcção uma da outra. Nunca nos encontrámos, sabes? Éramos apenas eco. Viajo pelos dias, pelos meses, pelos anos, e nunca nos encontrámos. Nem uma única vez. Como pudemos cruzar-nos tantas vezes sem nos encontrarmos?

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k

#51

Quarta-feira, 19.11.14

The Tree of Life (2011)

The Tree of Life (2011)

 

Os momentos sucederam-se sem que pudéssemos travá-los ou consumi-los até ao tutano.

Quanto tempo passou até nos apercebermos. Quanto passou.

Tantas horas a desfazermo-nos em palavras. Tantos dias, horas, talvez meses, ganhos e perdidos.

Palavras ditas sem serem sentidas, sentimentos guardados sem serem ditos.

Tinha tanto para te dizer mas não te ouço. São tantas as vozes que ecoam algures.

Serás uma dessas vozes? E, se fores, saberei reconhecer a tua voz?

Lembro-me que é quente como o teu abraço, fria como as tuas mãos gélidas a aquecer as minhas, a tocar-me a face, efémera como tudo o que acaba. Lembro-me que me fazia rir, chorar, sonhar. Lembro-me que me levava a passear à volta do mundo. Do teu mundo. E eu sentia-me tão perto de ti.

Lembro-me, mas tenho tanto medo de me esquecer. Como me esqueci da tua voz.

 

Hoje somos ruído.

Fragmentos.

Pedaços de tudo.

Espaços por preencher.

Passado.

Nada mais.

 

Seremos um sonho sem nunca o ter sido.

Talvez pesadelo. No ritmo insano de um momento qualquer.

De outro momento qualquer.

 

S.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por sara k





Mais sobre mim

foto do autor



subscrever feeds


Links

Sensações